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domingo, abril 29, 2007

Dia 22 de Abril - DIA DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL

Há algum tempo fiz esse poema e, somente agora, resolvi torná-lo público. É uma homenagem ao nosso país que, apesar dos altos e baixos, nos mantem cheios de esperança e orgulho.


CANÇÃO DO EXÍLIO
Silvana Maria Moreli
*** (Respeite os direitos autorais. Se for utilizar algum texto desse blog, parcial ou totalmente, não se esqueça dos créditos. Obrigada!) ***
Se eu pudesse cantar o meu país e,
Se para isso Deus tivesse me provido do dom da poesia,
Da música, da voz...
Com certeza eu entoaria uma melodia
Que enaltecesse suas belezas naturais,
Sua fauna, sua flora, sua gente, suas diferenças culturais.
Cantaria o clima tropical, as matas, as florestas,
As praias, as montanhas, o turismo;
A beleza da mulher brasileira, seu exotismo;
O povo que improvisa, o folclore e as festas;
A maneira peculiar de se falar a mesma língua
De forma tão diferente...
Ah! O sotaque dessa minha gente!
Cantaria o índio - povo valente, povo guerreiro;
Cantaria o negro, o branco,
O amarelo, o mulato...
Cantaria a mistura de raças que deu origem
Ao que hoje chamamos "bravo povo brasileiro"!
Cantaria o que é bem nosso - "paixão nacional":
- Futebol e Carnaval!
Cantaria os ídolos que dão "Olé":
- Nosso inigualável Pelé!
Cantaria a música que cruza fronteiras e é um poema:
- Nossa "Garota de Ipanema"!
E aquele alguém que já 'partiu' e deixou uma lembrança tão amena:
- Nosso inesquecível "Airton Sena".
E a música ainda, há tanto para cantar:
- Vinicius, Caetano, Gal, Betania e Gil...
Como é "grande" esse meu Brasil!
É claro que tem defeitos, esse meu amado país,
Mas quem não os tem?
Problemas? São infinitos, não se podem enumerar:
Político, econômico e social (melhor não citar)!
Mas também tem a garra e a esperança,
(a fé e o sorriso da criança) -
Desse povo que luta todo dia e não esmorece.
Povo otimista, que trabalha e não entristece.
A espera de um dia melhor que está por vir.
E virá, se Deus assim o permitir!
A cabeça fervilha, há muito ainda por cantar (o Brasil é tão rico!),
As idéias vão brotando e a memória insiste em lembrar
Que ainda há muito por cantar...
Oh! Meu Deus por que não tenho o dom da música?
Por que é tão difícil sintetizar um sentimento?
Eu sei que agora Deus escuta meu lamento,
E talvez, por certo, esteja me incluindo em algum plano
E me presenteie no futuro - (já que não é nato),
com aquilo que almejo: talento!
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ESTÁ-SE EM ÊXTASE... Ou em Ecstasy!

- DIGA NÃO ÀS DROGAS - DIGA SIM À VIDA - DIGA NÃO ÀS DROGAS -
ESTÁ-SE EM ÊXTASE...
Ou em Ecstasy!

Silvana M. Moreli
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Agora, não mais seremos eu ou você – seremos nós.
Somos unos – atados num laço invisível, forte e indissolúvel.
Fizemos um pacto de vida e de morte - nada nem ninguém poderá nos separar;
Viverá e morrerá por mim.
Nos entrelaçaremos num balé de corpo e mente;
Sons inaudíveis invadirão seu cérebro;
Farão com que você cante e grite e chore.

Seu corpo ficará gélido, os batimentos cardíacos, desritmados,
Sua respiração, entrecortada, sua visão, escarlate.
Um misto de prazer e angústia se apossará da sua alma;
E, estando comigo, sentirá saudades de mim.

Sua mente não conseguirá encadear um só raciocínio,
Irá ao ápice da loucura velozmente,
E descerá à tênue consciência vagarosamente.
Delírio e realidade se misturarão freneticamente.

Abandonará seu corpo e me procurará sofregamente,
Num desejo ávido de me possuir, de alcançar o inatingível.
Talvez até lute contra essa obsessão,
mas quando isso ocorrer estarei entranhado em seu corpo,
Como parasita que se agarra ao hospedeiro para sugar-lhe as forças:
Nada em sua vida terá sentido sem mim.
Sentirá uma necessidade doentia de que eu esteja por perto;
Pagará qualquer preço para estar comigo.
Se por algum motivo estiver privada da minha presença,
Ficará evidente todo fascínio que exerço sobre você;
Sua boca ficará seca e uma lágrima rolará dos seus olhos;
O sangue fugirá da sua face e sua tez pálida denotará
Todo sofrimento pela minha ausência.
Se agitará com irritabilidade incontrolável;
Como incontrolável será o tremor da sua carne.
Estará débil e emocionalmente fragilizada.
Não encontrará equilíbrio para o corpo e para a mente.
Cairá numa profunda depressão,
Daquelas que se perde a fome, o sono e o gosto pela vida.
Serei eu a sua vida, serei eu o seu vício;
Serei eu o ar que respira,
Serei eu o seu corpo, sua mente, sua alma.

Não conseguirá amar ninguém senão a mim.
Devotará-me uma subserviência de escravo,
E quando unidos estivermos e você saciada de prazer,
Se entregar languidamente ao meu domínio,
Te possuirei com volúpia, com voracidade...
E nós dois irmanados numa excitação sem limites,
Percorreremos caminhos sombrios, misteriosos, paradisíacos, fascinantes...
Esses caminhos a levarão à minha identidade – tarde demais:
E assim será você – pobre mortal;
E assim serei eu – puro êxtase! Puro ecstasy!

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- DIGA NÃO ÀS DROGAS - DIGA SIM À VIDA - DIGA NÃO ÀS DROGAS -

ADORNOS, FITAS E BABADOS

ADORNOS, FITAS E BABADOS
Silvana Maria Moreli

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Eram dois Carlos. Iguais no nome e na idade. Diferentes na sorte.
O primeiro nascera sem qualquer adorno, fitas e babados. Viera ao mundo no interior de uma viatura policial. Sua mãe saíra de casa às pressas para tentar impedir que seu marido participasse daquele assalto. Temia pela vida dele, temia por ela própria e pela criança que estava esperando. Chegara tarde ao banco. A polícia já havia desbaratado a quadrilha e o saldo desta operação fora cinco integrantes presos, três feridos e um morto. Seu marido jazia no chão, inerte com três tiros na cabeça. Dera um grito de horror, de medo, de angústia, de desesperança que ecoou no ar como um pedido de ajuda. Policiais que estavam por perto socorreram-na. Estava abalada emocionalmente e já sentindo as dores no parto. Os policiais fizeram o possível, mas o trânsito os impediram de chegar até o hospital e a criança nascera ali mesmo, no banco de trás da viatura policial, sem qualquer cuidado, sem médicos e enfermeiras, sem adornos, fitas e babados.

O segundo Carlos nascera como haviam programado os médicos e seus pais. Nascera numa linda sexta-feira, de muito sol. Viera envolto em muitos adornos, fitas e babados. Sua mãe não teve outra preocupação durante a gravidez a não ser cuidar da decoração do seu quarto e de seu enxoval. O pai viera do exterior para filmar o parto. Uma grande festa fora preparada, regada a muito uísque importado e charutos cubanos. Membros da família e amigos chegavam a todo momento à mansão trazendo presentes para o pequeno e já ilustre Carlos.
O primeiro recebera o nome de Carlos Alberto da Silva. Carlos Alberto era o nome do protagonista de uma novela que a mãe assistira há muito tempo, mas que não se esquecera jamais. Seria Carlos Alberto e, quisera Deus, tivesse a mesma sorte do personagem: ser honesto sempre, em qualquer situação, trabalhar e ganhar muito dinheiro, encontrar um grande amor, casar-se e ter filhos, ser feliz. Era isso o que a mãe desejava àquela criaturinha indefesa. Mas, morando ali na favela, com toda aquela falta de recursos, toda aquela miséria e toda aquela carência, pensava que talvez a sorte de Carlos Alberto fosse outra, bem diferente da vivida pelo personagem da novela. Talvez o garoto se envolvesse com pequenos crimes, com drogas, com traficantes. Talvez fosse preso, enviado para alguma dessas Instituições para recuperação de menores e morto numa dessas rebeliões onde queimam-se colchões, torturam-se os reféns e a vida vale muito pouco ou nada. Não queria mais pensar nisso. Afastara os pensamentos tortos e começara a rezar.
O segundo Carlos, recebera na pia batismal o nome de seu avô, Carlos Eduardo Albuquerque de Mendonça Neto. Fora assim decidido por tratar-se de um costume familiar. Os pais já traçavam o destino do filho. Seria feliz certamente, teria de tudo, estudaria nas melhores escolas, teria os melhores amigos, todos eles com aqueles sobrenomes imponentes de quem já nasce cercado de adornos, fitas e babados. E, quando menos se esperasse, o pequeno Carlos quadruplicaria os bens da família. Sempre fora dessa maneira. Não havia muito o que planejar - seu futuro já estava traçado - pensavam os pais.
Os dois Carlos crescem. Contam agora dez anos de idade. Ambos nasceram no mesmo dia; no dia em que Carlos Alberto perdia o pai durante um assalto; numa sexta-feira ensolarada em que o pai de Carlos Eduardo chegava do exterior para presenciar seu nascimento. Ambos nascem Carlos mas ambos vivem Carlos diferentes.
Enquanto Carlos Eduardo mantém uma rotina atribulada entre a escola e vários outros cursos e esportes, Carlos Alberto não freqüenta a escola, vende chiclete nos semáforos para ajudar sua mãe e convive com a violência no morro; tiroteios e balas perdidas ou até mesmo com destino certo.
Carlos Eduardo trilha por uma educação que, conforme seus pais, o levará a ser um grande homem. Carlos Alberto trilha pela linha de fogo dos traficantes e não sabe se chegará, sequer, a ser um homem.
Carlos Eduardo diz: “Obrigado, senhor...”; Carlos Alberto diz: “Valeu, tio...”.
Carlos Eduardo não sabe o que é passar fome. Carlos Alberto não sabe o que é comer bem.
Carlos Eduardo usa roupas de grife. Carlos Alberto usa roupas rotas doadas pelas Instituições de Caridade.
Apenas uma avenida separa o condomínio de luxo onde vive Carlos Eduardo do morro íngreme onde mora Carlos Alberto. Um não sabe da existência do outro, mas, a vida se encarregará de delinear o destino de ambos. Com adornos ou sem adornos, com fitas ou sem fitas, com babados ou sem babados. E, como destino não é ciência exata, ambos correm os riscos de se viver. Ser na vida Carlos iguais ou Carlos diferentes, mas ser Carlos.
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IN FARTO

IN FARTO
Silvana Maria Moreli
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Ainda sinto-me debilitado essa manhã. Minhas forças estão se esvaindo.
Há décadas me levanto quando o dia teima em chegar e a noite reluta em partir. Sempre gostei de acordar bem cedo, pois somente assim tenho a ilusória sensação de estar prolongando o meu dia. Por essa mesma razão, vou dormir bem tarde, para poder aproveitar cada minuto. Dormir, para mim, não é tarefa fácil. Perde-se muito tempo enquanto se dorme. E, não queiram me convencer de que "o organismo humano necessita de seis a oito horas de sono para se recompor". Balelas! Dormir é improdutivo.
Preparo meu café da manhã e vou ingerindo-o rapidamente enquando passo os olhos ávidos e ligeiros pelas principais manchetes do jornal e acabo me deparando com as letras garrafais da página econômica, que é o que sobremaneira me interessa: cotações do dólar, taxas de juros, cotações da Bolsa de Valores, a economia brasileira, a economia mundial etc. Tais assuntos exercem verdadeiro fascínio sobre mim, impregnam-me, dão-me um prazer quase doentio. É uma gama enorme de informções para absorver em pouco tempo. E pensar que há pessoas que raramente lêem um jornal e, se o fazem, é para ler horóscopo, fofocas do mundo artístico e outras futilidades. Eu não! Sou ocupado demais para perder meu tempo com banalidades. Estar bem informado é primordial para o bom desempenho do meu trabalho, porém, retenho apenas o que me convém.
Raramente vejo meus empregados devido aos meus horários. Prefiro assim. Saio bem cedo de casa, mesmo sabendo que ficarei horas preso no trânsito. O som das buzinas penetra meu cérebro e destrói impiedosamente o meu humor. Aliado ao som das buzinas está o som das batidas no vidro do carro. São crianças maltrapilhas que querem vender chicletes, chocolates, água, refrigerante etc. Mantenho o vidro fechado - essa movimentação me estressa. Aproveito esse fatídico episódio e ligo para minha secretária para repassarmos os compromissos do dia. Agenda lotada como sempre. São tantos os compromissos, reuniões, visitas, viagens, fechamento de contratos, clientes, fornecedores, assinaturas, telefonemas indo e vindo... Pego-me com a mão atolada na buzina. E o relógio, esse meu inimigo mortal, trava uma luta psicológica comigo. Não posso medir forças com ele, já que minhas armas são ineficientes para o combate. Aceito portanto, com resignação, mas sob protesto, minha impotência ante seu poder.
Na empresa, nada se move sem o meu consentimento. Não permito. Sempre estou atento a tudo e a todos. Nada passa despercebido. Sei que muitos me acham centralizador. Eu me acho eficiente.
Não tenho o hábito de almoçar, isso é pura perda de tempo. O tempo do meu almoço pode ser fundamental para a concretização de um ótimo negócio. Um lanche rápido ou uma fruta é mais do que suficiente. Comer é vício. Fome é psicológico. Eventualmente almoço ou janto com um cliente e, me disponho até mesmo a acompanhá-lo a um "happy hour" ou uma "badalação noturna", obviamente se eu puder tirar algum proveito da situação. Afinal, o lucro é o que importa. Importa estar no topo. A empresa cresce. Eu sou a empresa. Logo, nós crescemos!
Nunca me queixei de trabalhar, muito pelo contrário, amo meu trabalho, aliás, "meu trabalho" é tudo para mim. Meus amigos dizem que sou um "workaholic" (viciado em trabalho). Amigos! Ora, que amigos? Refiro-me a alguns "colegas" de trabalho que num momento de rara descontração fazem observações vis como essa. Com relativa constância, vejo funcionários cochichando pelos cantos quando eu passo e, vez por outra, ouço comentários do tipo: "Ele é sério demais, sisudo e antipático!"; "Talvez seja por isso que nunca tenha se casado. Que mulher suportaria viver com um homem tão egoísta?". Nunca me ative a esses burburinhos de escritório. Nunca tive tempo para tal.
Férias? Nem pensar! Jamais conseguiria descansar ou me desligar dos meus afazeres em função de um capricho. Férias é para quem não tem o que fazer. É preciso trabalhar para se sentir vivo, desenvolver projetos para se sentir capaz, ter sucesso para se ser.
Foi por meio do meu trabalho que realizei meus sonhos e me realizei. Trabalhando e realizando, realizando e querendo mais, querendo e conquistando, conquistando , conquistando... Não, não me peçam para descrever qual o sabor da conquista, pois não saberia expressar corretamente com palavras o imenso prazer que um boa conquista proporciona.
Hoje tenho o que mais almejei na vida: dinheiro e sucesso e, acabo de travar uma nova luta, um novo desafio para a minha vida. O relógio, meu inimigo mortal, já não me assusta tanto. Aqui, o tempo é subjetivo e não é contado por horas, minutos, segundos... Não sei que horas são e qual o dia da semana. Minha batalha agora é com as paredes pálidas deste quarto, com o som que já não é tão ensurdecedor quanto o das buzinas, é o som do silêncio do lugar quebrado pelo som entediante que vem do aparelho ligado ao meu coração.
A porta se abre. Tenho uma visão: é um anjo trajando branco da cabeça aos pés. Será que morri? Não! É apenas a enfermeira que veio monitorar os aparelhos e me dar mais uma daquelas injeções. Infarto! Que ironia. E eu, justamente eu, aqui, imobilizado.
O médico que me atendeu fez uma série de recomendações e restrições, as quais, segundo ele, deverei seguir à risca.
Imaginem vocês se vou me intimidar... De forma alguma! Já tenho planos concretos para quando sair daqui: vou trabalhar muito e triplicar o meu patrimônio.
Se me perguntarem para quem deixarei meus bens quando morrer, responderei seguramente que eu não vou morrer. Não tenho tempo para isso. Estarei ocupado demais quando a morte chegar!
Nesse momento um sono incontrolável se apossa de mim... minhas forças estão se esvain...

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sábado, março 10, 2007

Pausa para Meditação


"Pensamos demasiadamente, sentimos muito pouco.
Necessitamos mais de humildade que de máquinas.
Mais de bondade e ternura que de inteligência.
Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá."

Charles Chaplin

domingo, fevereiro 04, 2007

A PAZ

A PAZ
Silvana M. Moreli
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A paz deve ser cultivada, compartilhada, ingerida e praticada.

Por meio da paz podemos vislumbrar novos caminhos, adquirir o hábito de apreciar e valorizar os detalhes em detrimento de um todo corrompido, criar perspectivas futuristas que convirjam para a união dos povos e para o respeito mútuo, celebrar a vida em toda sua plenitude e inefável beleza.

O caminho que leva à paz deve ser trilhado com perseverança. O terreno é ingreme e tortuoso e as intempéries dificultam o acesso, mas nem por isso se deve esmorecer; deve-se vislumbrar caminhos diversos e procurar com afinco atingir o objetivo, que poderá estar tão próximo que prejucicará a nitidez da imagem; que poderá estar sobretudo, intrínseco e entranhado em cada ser humano.

Por todos os lados, a violência, o ódio, a corrupção, o abuso de poder, a aopressão sucumbem o ânimo de perserverar na busca do ideal de paz. A ruína do todo compromete a percepção dos mais inebriantes detalhes: a paz pode estar no silêncio das palavras que não foram ditas, apenas sugeridas; no olhar terno de uma mãe, de um amigo, de um semelhante; no pôr do sol avermelhado de uma tarde qualquer; na gota de orvalho que se equilibra delicadamente na borda de uma pétala de rosa, para em seguida cair suavemente ao solo; no vento que sopra acariciando a copa das árvores; no cheiro de terra molhada durante uma branda chuva de verão; numa música que alimenta a alma; numa obra de arte que enaltece e jubila os seres, podendo estes conter a essência da paz e a essência da arte.

Deixar fluir a esperança de um futuro pródigo em dignidade, em virtude, em trabalho, em fraternidade e solidariedade, em amor... Amor ao próximo, independente de credos e religiões, raça ou condição social, despojando-se de quaisquer preconceitos que possam vir a existir. Criar perspectivas e elaborar planos de união e respeito entre os povos.

Ver a vida com os olhos da pureza de uma criança; sentir a vida com a sensibilidade de um artista, querer a vida com a avidez de quem deseja o inatingível, esperar pela vida como quem espera um milagre, brindar a vida como se esta fosse uma eterna festa.

A paz não deve ser apenas uma palavra em meio a uma discussão utópica, ela dever ter a consistência da idéia, deve vir de dentro para fora. A paz não deve fazer parte de um discurso político oblíquo e taticamente estruturado para atingir um alvo, que muitas vezes carece de cultura e discernimento para separar o joio do trigo, as boas intenções da politicagem. A paz não deve ser um argumento vago diante do desejo de tê-la, não deve apenas restringir-se a uma bandeira ou a uma pomba branca. Estes símbolos deverão ser incutidos na mente das pessoas desde muito cedo para que a paz seja valorizada como um patrimônio da humanidade e não apenas como uma palavra de efeito. A paz não deve ser exclusividade de uma minoria, ela deve ser compartilhada com o mundo; deve ser ingerida dia-a-dia como alimento para o espírito; deve ser colocada em prática; deve ser reverenciada.

terça-feira, janeiro 02, 2007

AINDA SOBRE O PRECONCEITO

FILADÉLFIA: o filme, o tema

por Silvana Maria Moreli

*** (Respeite os direitos autorais. Se for utilizar algum texto desse blog, parcial ou totalmente, não se esqueça dos créditos. Obrigada!) ***

Em “Filadélfia”, filme dirigido por Jonathan Demme, o mesmo de “O Silêncio dos Inocentes”, o tema “preconceito” é focalizado sob vários ângulos, mas, a trama central gira em torno da discriminação que cerca um paciente, Andrew Beckett, interpretado por Tom Hanks, portador do vírus HIV, protagonista da história, no papel de um promissor advogado de um conceituado e tradicional escritório e que é demitido tão logo seus patrões descobrem que está com AIDS. Eles, os patrões, negam veementemente que o motivo da demissão tenha sido “preconceito”, alegando que a causa real seria “incompetência”.

Denzel Washington é Joe Miller, um advogado de pequenas causas, negro, que sofre discriminação racial, porém, de uma forma mais velada no contexto do filme, já que o enfoque principal é o preconceito contra o paciente soropositivo e a opção sexual do mesmo. É o único, sem demonstrar, no início, muito otimismo, que aceita defender Andrew Beckett no processo que este está movendo contra seus ex-patrões. O filme evidencia o preconceito que Joe Miller nutre contra os homossexuais; é machão, casado, tem filhos e atribui à educação severa e machista que teve, o fato de repudiar tanto o homossexualismo.

A relação entre Andrew Beckett e Miguel Alvarez (Antonio Banderas) também é velada, ficando apenas no campo da sugestão.

O ponto alto da trama surge quando Andrew Beckett, já debilitado pela doença, sob a luz avermelhada da lareira e ao som da ária “La Mamma é Morta”, da ópera Andrea Chenier, de Giordano, desliza pela sala como se flutuasse, levando o advogado Joe Miller às lágrimas (que este faz questão de disfarçar) e à reflexão que o faz mudar de comportamento. Seu comportamento preconceituoso do início do filme, cede lugar a um comportamento de respeito e admiração.

O apoio incondicional da família é outro enfoque importante no decorrer da história. Em nenhum momento, qualquer membro da família teve uma atitude preconceituosa ou de indignação, muito pelo contrário, ela aparece como base de apoio, como sustentação.

Fim do processo judicial, veredicto em favor de Andrew Beckett que culmina com sua morte física, uma vez que a morte social já havia sido decretada quando da sua discriminação, demissão e humilhação.


FICÇÃO E REALIDADE: o preconceito

nosso de cada dia

Todos temos preconceitos, em diferentes escalas e graus e, embora tentemos fugir deles e não assumi-los, encontram-se por toda parte, arraigados à nossa cultura. Existem pela ignorância, pela incapacidade de compreender e de aceitar as “diferenças”. A sociedade é contraditória no que diz respeito aos preconceitos: se por um lado condena os preconceituosos (em alguns casos, sob as penas da lei), por outro avaliza a disseminação de atitudes preconceituosas. O ser humano luta consigo mesmo para desvencilhar-se de todo e qualquer preconceito, mas acaba esmorecendo quando se depara com o fantasma da “diferença”; o ser humano não consegue se libertar dos paradigmas impostos pela sociedade, na qual, tudo aquilo que foge dos padrões é “diferente” e, sendo “diferente”, é discriminado. Se tomarmos como exemplo o preconceito contra os homossexuais e portadores do vírus HIV, podemos fazer uso do filme “Filadélfia”, que tão bem explorou o tema em questão.


O preconceito é algo que raramente as pessoas assumem ter e, na maioria das vezes, não têm noção do que representa. Do conceito de preconceito, tendo em vista idéias pré-concebidas, a discriminação surge, seja na raça, na religião, na cor ou tipo de cabelo; doença, deficiência física ou mental; nível cultural ou sócio-econômico; sexo ou preferência sexual; cidade ou país de origem etc.

A sociedade condena os preconceituosos ao mesmo tempo em que instiga o preconceito entre as pessoas. Atualmente, a Internet é um meio muito eficaz de propagação de idéias preconceituosas, haja vista a quantidade de piadas e textos discriminatórios contra os “negros”, as “mulheres”, os “gordos”, os “baianos”, os “portugueses”, as “loiras”, os “caipiras”, os “quarentões”, o “sistema carcerário”, as “músicas sertanejas” etc. São colocações corriqueiras como “Nossas prisões estão cheias de negros e nordestinos”, “Os gays são responsáveis pela epidemia de Aids”, “Fui assaltada ontem. O assaltante era um negro...” que denotam o preconceito velado de uma sociedade hipócrita e acabam por configurar um campo propício para a proliferação do preconceito. Não somos perfeitos e temos o direito de rejeitar as diferenças, mas jamais de negar aos outros os mesmos direitos que a nós são concedidos, de mutilá-los da mesma liberdade de ação e pensamento de que dispomos.

Nos deparamos, no filme “Filadélfia”, com alguns exemplos fortes de preconceito. O mais evidente é o preconceito contra os homossexuais e, concomitante a este, o preconceito contra o indivíduo portador do vírus HIV. É inegável que os fatores que fortalecem um preconceito são, sem dúvida, a ignorância e o medo. E, para comprovar isso, no caso específico do filme, podemos ressaltar o fato de que o enredo se desenvolve quando a Aids ainda estava despontando e o que se sabia a respeito, era pouco difundido e mal interpretado. Algumas cenas nos mostram isso claramente, por exemplo, quando o advogado Joe Miller ao dar a mão a Andrew Beckett, descobre logo em seguida que este está com Aids; por alguns instantes fica olhando para a mão um tanto quanto atemorizado, faz menção de limpá-la, fica incomodado e procura manter uma certa distância de Andrew. A insegurança o faz procurar um médico de sua confiança para tirar dúvidas quanto às formas de contágio da doença, e, mediante as explicações do médico, consegue ficar um “pouco” mais aliviado. Outro exemplo, é uma cena do julgamento, na qual Andrew Beckett é interpelado sobre seus conhecimentos a respeito da doença. Ele responde que já havia “ouvido falar” vagamente sobre uma doença denominada “peste gay”...

Com as primeiras tentativas de explicação da epidemia de Aids, nasceu o preconceito contra os que contraiam o tal vírus HIV. A saber: “peste gay”, como era conhecida no início; “grupos de risco”, pessoas que pertenciam a um grupo com pré-disposição a contrair a doença e cujo contato deveria ser evitado: os homossexuais, os bissexuais e os que viviam da prostituição. Com o alto nível de contágio pelo consumo de drogas injetáveis, o partilhar de seringas e a falta de controle do sangue desde o começo da epidemia (que infectou vários hemofílicos), o “medo” tomou proporções astronômicas. Atualmente fala-se em “comportamento de risco”, uma vez que a Aids tornou-se uma realidade bem próxima.

O problema da Aids, mostrado de forma tão singular no filme “Filadélfia”, traz à tona todo pânico de se estar diante de uma doença incurável e que tem a morte como pano de fundo. Sobre isso, Herbert de Souza (“Betinho”) diz: “A doença que mistura racismo, sexo e sangue, só pode ser uma doença revolucionária”.

Crer-se livre de preconceitos é estar-se prejulgando ou preestabelecendo um comportamento predeterminado pela sociedade; é prescrever no livro da vida uma pré-confissão da hipocrisia humana; é crer-se dotado de prematura predestinação à perfeição, incorrendo no imperdoável erro de subjugar seus semelhantes. Preordenar a si atitudes antidiscriminatórias é a preconização de atos de efeito, com o intento único de justificar-se perante a própria consciência. A inversão de valores éticos e morais é a auto-condenação à condição de iníquo; é estar-se predestinado à conviver com a ambigüidade do “eu” que, se por um lado prenuncia-se um “ser isento de preconceitos”, por outro comete atos discriminatórios e preconceituosos contra tudo aquilo que “difere dos padrões” impostos pela sociedade.

Streets of Philadelphia (Ruas de Filadelfia) [1]

Bruce Springsteen

I was bruised and battered

Eu estava ferido e confuso

I couldn’t tell what I felt

Eu não conseguia dizer o que sentia

I was unrecognizable to myself

Eu estava irreconhecível para mim mesmo

I saw my reflection in a window

Eu vi meu reflexo em uma janela

I didn’t know my own face

Eu não reconheci meu próprio rosto

Oh! Brother

Oh! Irmão

are you gonna leave me wasting away

você vai me abandonar definhando

on the streets of Philadelphia?

nas ruas da Filadélfia?

I walked the avenue

Andei pela avenida

‘till my leg felt like stone

até minhas pernas pesarem como pedras

I heard the voices of friends vanished and gone

Ouvi vozes de amigos desaparecidos e mortos

At night I could hear the blood in my veins

À noite pude ouvir o sangue em minhas veias

black and whispering as the rain

negro e sussurrante como a chuva

on the streets of Philadelphia

que corre nas ruas da Filadélfia

Ain’t no angel gonna greet me

Nenhum anjo vai me acolher

It’s just you and I my friend

Somos só eu e você meu amigo

my clothes don’t fit me no more

minhas roupas não me servem mais

I walked a thousand miles just to split this skin

Andei mil milhas apenas para dividir esta dor

The night has fallen, I’m lying awake

A noite caiu, estou deitado, mas desperto

I can feel myself fading away

Sinto que estou desaparecendo

so receive me brother with your faithless kiss

então receba-me irmão com seu beijo infiel

Or will we leave each other alone like this

ou nos abandonaremos sozinhos desse jeito

On the streets of Philadelphia

nas ruas da Filadélfia




[1] Tema musical do filme “Filadélfia” – “Streets of Philadelphia” (Bruce Springsteen)

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