SEJA BEM-VINDO!!!
sábado, abril 02, 2011
A ESCOLA E O CONTEXTO LOCAL
Anderson Benelli *
É muito comum ouvirmos educadores(as) e pais dizerem que a escola – e com escola quero dizer os seres humanos que a compõem e a cidade, uma vez que ela não é feita de concreto e sim dos seres humanos que formam essa sociedade - é nossa segunda casa e, por isso, devemos respeitá-la. Mas que casa é essa onde a palavra de ordem é não? Onde educandos(as) não podem exercer o seu direito a palavra e nem fazer nada no qual se reconhecem?
Os(As) educandos(as) não se reconhecem na escola, porque a escola ainda não se reconhece como parte da comunidade que está inserida. Se o museu é o mundo como diz o artista brasileiro Hélio Oiticica, a escola também o é. E é no mundo que se faz o processo de ensino/aprendizagem. Aprendemos em contato com o mundo e com o outro, como bem disse Paulo Freire.
Durante o debate “Além dos muros da escola que ocorreu no Terreiro Eu sou a Rua na 29ª Bienal de São Paulo”, uma educadora disse que a escola é desestimulante para os(as) alunos(as) por três fatores: é todo dia, é obrigatória e é um espaço coletivo. Por ser uma atividade rotineira em um espaço coletivo eu não posso expressar minha identidade como indivíduo? Isso não parece o suficiente para justificar o desinteresse de grande parte dos(as) educandos(as), já que durante toda vida convivemos coletivamente cumprindo com obrigações rotineiras. O ser humano chega ao mundo já inserido em uma pequena sociedade, a família. Depois vem o convívio com irmãos, parentes, amigos, desafetos, etc. Ou seja, obrigatoriamente vivemos todos os dias coletivamente e nem por isso a vida é desestimulante, a não ser que o indivíduo esteja sofrendo de desesperança e/ou depressão. A escola é o lugar onde fazemos novas amizades, lugar de encontros com colegas, amigos(as), namoradas(os). Como um lugar que proporciona tantas experiências
e encontros interessantes pode ser tão desestimulante?
Infelizmente, muitas escolas ainda não se reconhecem como parte da comunidade, automaticamente, a comunidade não se reconhece na escola e, consequentemente, os(as) educandos(as) como indivíduos dessa comunidade também não. Ao que parece, os maiores responsáveis por esse ambiente opressivo em sala de aula que afasta os(as) educandos(as) são: o currículo, o projeto pedagógico e a metodologia de ensino de alguns professores, dos quais muitos também foram vítimas de um ensino/aprendizagem opressor. E exatamente por isso, uma parte considerável deles não tem consciência crítica desse fato. E por sofrerem com uma educação “bancária”, tratados como recipientes vazios a receberem conhecimento como depósito, acabam ensinando como aprenderam.
Essa educação não interessa ao povo. Além de não estimular a reflexão, faz o oposto: a inibe, reprimindo a autonomia e a rebeldia, qualidades de valor imensurável no engajamento por mudanças. Essa educação resulta na preservação da hierarquia social. Porque “caminhos permitidos são rotas de escravidão e caminhos proibidos são rotas de libertação” (Fora de Frequência, 2010.), se repudia a rebeldia que estimula a autonomia e consciência crítica. Ou seja, essa educação “bancária” defende os interesses da classe dominante, inibindo a reflexão, a consciência crítica da realidade, a autonomia, o exercício da palavra dos oprimidos. Com isso, forma-se um povo domesticado, o que facilita a manipulação da opinião pública e a distorção da realidade social. Evita-se assim, que o povo enxergue as injustiças sociais e se rebele na luta por transformações contra um sistema social escravocrata.
Os muros que isolam a escola são muito mais que barreiras físicas, o muro físico é insignificante perto dos muros que muitos não conseguem ver, a escola ainda é uma instituição de controle onde indivíduos entram diferentes para saírem iguais. A igualdade que nós educadores(as) devemos buscar é a igualdade heterogênea, ou seja, a igualdade de respeito mútuo das diversidades e não a igualdade de cultura homogênea. Como atender as necessidades das diversidades culturais dos(as) educandos(as) e tornar o ensino/aprendizagem mais significativo?
Precisamos ter como conteúdo de ensino o foco de interesse dos(as) educandos(as) em uma abordagem interdisciplinar e intercultural. O grande problema nesse sentido é que parte dos(as) professores(as) ainda temem as manifestações culturais de interesse dos jovens por terem sido ensinados a temerem a rebeldia e subversão. As manifestações juvenis, normalmente, são carregadas dessas duas qualidades, o que reforça a necessidade de serem exploradas. Pois, essas são qualidades indispensáveis para um ensino/aprendizagem que valoriza a autonomia e consciência crítica dos(as) educandos(as). Como citou Paulo Freire “está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças, contra a deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel altamente formador”.
Por que a rua atrai mais do que a escola?
Os(As) educandos(as) esperam da escola que ela seja um território de liberdade, essa expectativa aumenta quando o(a) aluno(a) também se sente oprimido em casa, e a escola deve ser esse território de liberdade. Porém, é importante que não confundamos liberdade com algazarra, a escola temendo a segunda se torna o oposto, um lugar de repressão.
A rua permite que o sujeito exercite sua autonomia resolvendo conflitos, vivenciando diversas experiências em contato com o outro e com a realidade com que se identifica e, através de diferentes manifestações exerça sua palavra e, consequentemente, seu direito de “ser mais”. Ou seja, a rua se torna esse território de liberdade onde o indivíduo pode fazer suas próprias escolhas com as quais se identifica, rebelando-se contra os dogmas instituídos por um sistema social opressor, o indivíduo se sente livre ou pelo menos se libertando.
Mas, como fazer da escola um território de liberdade?
É preciso eliminar as fronteiras entre a rua e a escola, entre a realidade e a educação. Os(As) educadores(as) precisam tomar como temas de seus projetos pedagógicos o foco de interesse dos(as) educandos(as). A rua os atrai mais do que a escola porque essa propicia o contato direto com esses temas e com a realidade.
É contraditório se pararmos para pensar que os círculos de cultura filosóficos de Sócrates e seus companheiros foram a base referencial da academia, já que essa, parece fazer o oposto em sua proposta. Enquanto nos círculos filosóficos que geravam debates conceituais sobre a condição humana no mundo e em convívio com o outro, onde todos ouviam e exercitavam a palavra.
Nas escolas as carteiras são dispostas em fila com olhar dos(as) alunos(as) em direção ao mestre que, como um santo em um altar descarrega seu sermão que não deve ser interrompido pelos fiéis, deve ser ouvido sem questionamento porque o que ele diz é a verdade divina.
Nós educadores(as) precisamos repensar nossa prática de ensino/aprendizagem e nos apropriarmos das novas tecnologias, da rua e da realidade. E, a partir dos focos de interesse dos(as) educandos(as), problematizar nossa condição social no mundo com o outro, derrubando as fronteiras entre educação e realidade, escola e comunidade, educadores(as) e educandos(as). Assim, conseguiremos fazer do processo de ensino/aprendizagem algo realmente significativo, tanto para educandos(as) quanto para educadores(as), transformando a escola em um lugar de pertencimento, não só do educando(a) mas, de toda comunidade, formando sujeitos conscientes e engajados em busca de mudanças e melhores condições sociais para todos.
Os(As) educandos(as) não se reconhecem na escola, porque a escola ainda não se reconhece como parte da comunidade que está inserida. Se o museu é o mundo como diz o artista brasileiro Hélio Oiticica, a escola também o é. E é no mundo que se faz o processo de ensino/aprendizagem. Aprendemos em contato com o mundo e com o outro, como bem disse Paulo Freire.
Durante o debate “Além dos muros da escola que ocorreu no Terreiro Eu sou a Rua na 29ª Bienal de São Paulo”, uma educadora disse que a escola é desestimulante para os(as) alunos(as) por três fatores: é todo dia, é obrigatória e é um espaço coletivo. Por ser uma atividade rotineira em um espaço coletivo eu não posso expressar minha identidade como indivíduo? Isso não parece o suficiente para justificar o desinteresse de grande parte dos(as) educandos(as), já que durante toda vida convivemos coletivamente cumprindo com obrigações rotineiras. O ser humano chega ao mundo já inserido em uma pequena sociedade, a família. Depois vem o convívio com irmãos, parentes, amigos, desafetos, etc. Ou seja, obrigatoriamente vivemos todos os dias coletivamente e nem por isso a vida é desestimulante, a não ser que o indivíduo esteja sofrendo de desesperança e/ou depressão. A escola é o lugar onde fazemos novas amizades, lugar de encontros com colegas, amigos(as), namoradas(os). Como um lugar que proporciona tantas experiências
e encontros interessantes pode ser tão desestimulante?
Infelizmente, muitas escolas ainda não se reconhecem como parte da comunidade, automaticamente, a comunidade não se reconhece na escola e, consequentemente, os(as) educandos(as) como indivíduos dessa comunidade também não. Ao que parece, os maiores responsáveis por esse ambiente opressivo em sala de aula que afasta os(as) educandos(as) são: o currículo, o projeto pedagógico e a metodologia de ensino de alguns professores, dos quais muitos também foram vítimas de um ensino/aprendizagem opressor. E exatamente por isso, uma parte considerável deles não tem consciência crítica desse fato. E por sofrerem com uma educação “bancária”, tratados como recipientes vazios a receberem conhecimento como depósito, acabam ensinando como aprenderam.
Essa educação não interessa ao povo. Além de não estimular a reflexão, faz o oposto: a inibe, reprimindo a autonomia e a rebeldia, qualidades de valor imensurável no engajamento por mudanças. Essa educação resulta na preservação da hierarquia social. Porque “caminhos permitidos são rotas de escravidão e caminhos proibidos são rotas de libertação” (Fora de Frequência, 2010.), se repudia a rebeldia que estimula a autonomia e consciência crítica. Ou seja, essa educação “bancária” defende os interesses da classe dominante, inibindo a reflexão, a consciência crítica da realidade, a autonomia, o exercício da palavra dos oprimidos. Com isso, forma-se um povo domesticado, o que facilita a manipulação da opinião pública e a distorção da realidade social. Evita-se assim, que o povo enxergue as injustiças sociais e se rebele na luta por transformações contra um sistema social escravocrata.
Os muros que isolam a escola são muito mais que barreiras físicas, o muro físico é insignificante perto dos muros que muitos não conseguem ver, a escola ainda é uma instituição de controle onde indivíduos entram diferentes para saírem iguais. A igualdade que nós educadores(as) devemos buscar é a igualdade heterogênea, ou seja, a igualdade de respeito mútuo das diversidades e não a igualdade de cultura homogênea. Como atender as necessidades das diversidades culturais dos(as) educandos(as) e tornar o ensino/aprendizagem mais significativo?
Precisamos ter como conteúdo de ensino o foco de interesse dos(as) educandos(as) em uma abordagem interdisciplinar e intercultural. O grande problema nesse sentido é que parte dos(as) professores(as) ainda temem as manifestações culturais de interesse dos jovens por terem sido ensinados a temerem a rebeldia e subversão. As manifestações juvenis, normalmente, são carregadas dessas duas qualidades, o que reforça a necessidade de serem exploradas. Pois, essas são qualidades indispensáveis para um ensino/aprendizagem que valoriza a autonomia e consciência crítica dos(as) educandos(as). Como citou Paulo Freire “está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças, contra a deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel altamente formador”.
Por que a rua atrai mais do que a escola?
Os(As) educandos(as) esperam da escola que ela seja um território de liberdade, essa expectativa aumenta quando o(a) aluno(a) também se sente oprimido em casa, e a escola deve ser esse território de liberdade. Porém, é importante que não confundamos liberdade com algazarra, a escola temendo a segunda se torna o oposto, um lugar de repressão.
A rua permite que o sujeito exercite sua autonomia resolvendo conflitos, vivenciando diversas experiências em contato com o outro e com a realidade com que se identifica e, através de diferentes manifestações exerça sua palavra e, consequentemente, seu direito de “ser mais”. Ou seja, a rua se torna esse território de liberdade onde o indivíduo pode fazer suas próprias escolhas com as quais se identifica, rebelando-se contra os dogmas instituídos por um sistema social opressor, o indivíduo se sente livre ou pelo menos se libertando.
Mas, como fazer da escola um território de liberdade?
É preciso eliminar as fronteiras entre a rua e a escola, entre a realidade e a educação. Os(As) educadores(as) precisam tomar como temas de seus projetos pedagógicos o foco de interesse dos(as) educandos(as). A rua os atrai mais do que a escola porque essa propicia o contato direto com esses temas e com a realidade.
É contraditório se pararmos para pensar que os círculos de cultura filosóficos de Sócrates e seus companheiros foram a base referencial da academia, já que essa, parece fazer o oposto em sua proposta. Enquanto nos círculos filosóficos que geravam debates conceituais sobre a condição humana no mundo e em convívio com o outro, onde todos ouviam e exercitavam a palavra.
Nas escolas as carteiras são dispostas em fila com olhar dos(as) alunos(as) em direção ao mestre que, como um santo em um altar descarrega seu sermão que não deve ser interrompido pelos fiéis, deve ser ouvido sem questionamento porque o que ele diz é a verdade divina.
Nós educadores(as) precisamos repensar nossa prática de ensino/aprendizagem e nos apropriarmos das novas tecnologias, da rua e da realidade. E, a partir dos focos de interesse dos(as) educandos(as), problematizar nossa condição social no mundo com o outro, derrubando as fronteiras entre educação e realidade, escola e comunidade, educadores(as) e educandos(as). Assim, conseguiremos fazer do processo de ensino/aprendizagem algo realmente significativo, tanto para educandos(as) quanto para educadores(as), transformando a escola em um lugar de pertencimento, não só do educando(a) mas, de toda comunidade, formando sujeitos conscientes e engajados em busca de mudanças e melhores condições sociais para todos.
__________________
UMA SALA DE AULA EM CADA CANTO DO MUNDO
Ensino médio
Uma sala de aula em cada canto do mundo
A escola itinerante Think Global School combina formação acadêmica e experiências globalizadas. Para isso, visitará 12 países nos próximos 4 anos
Nathalia Goulart
Alunos da Think Global School em Estocolmo, na Suécia, primeiro destino dos estudantes (Arquivo Pessoal)
Diz um provérbio chinês atribuído ao filósofo Confúcio: "Quando escuto, esqueço. Quando vejo, lembro. Quando experimento, entendo". Inspirado por esse ditado, um grupo de 15 adolescentes iniciou em setembro passado uma extraordinária jornada: nos próximos quatro anos eles viajarão ao redor do mundo para cursar, em 12 países diferentes, as quatro séries do ensino médio. Esses jovens privilegiados formam a primeira turma de uma proposta inovadora de "educação globalizada" adotada pela Think Global School, uma escola criada nos Estados Unidos que oferece aos seus alunos a oportunidade de estudar cada trimestre acadêmico do ensino médio em uma cidade do mundo. Ao longo da viagem, eles estudarão biologia marinha nos mares da Austrália, analisarão as consequências da II Guerra Mundial na Alemanha e observarão de perto o vertiginoso crescimento econômico chinês.
A idealizadora da escola é Joann McPike, uma neozelandesa que já visitou quase uma centena de países. Habituada à diversidade, Joann se viu diante de um dilema ao buscar uma escola para o filho, Alexander, hoje com 14 anos e um dos 15 alunos da primeira turma da Think Global School. "Nenhuma escola era capaz de abarcar as peculiaridades do mundo em que meu filho vive", conta a fotógrafa de sua casa, nas Bahamas. A saída foi projetar uma espécie deroadschooling - ou educação itinerante. "Mas seria tedioso para ele estar sozinho o tempo inteiro. Então por que não levar uma escola inteira conosco?"
A idealizadora da escola é Joann McPike, uma neozelandesa que já visitou quase uma centena de países. Habituada à diversidade, Joann se viu diante de um dilema ao buscar uma escola para o filho, Alexander, hoje com 14 anos e um dos 15 alunos da primeira turma da Think Global School. "Nenhuma escola era capaz de abarcar as peculiaridades do mundo em que meu filho vive", conta a fotógrafa de sua casa, nas Bahamas. A saída foi projetar uma espécie deroadschooling - ou educação itinerante. "Mas seria tedioso para ele estar sozinho o tempo inteiro. Então por que não levar uma escola inteira conosco?"
Em setembro de 2010, a primeira turma da nona série (que corresponde ao primeiro ano do ensino médio no Brasil) embarcava rumo a Suécia, destino inaugural dessa turma. A rotina em cada uma das cidades envolve aulas teóricas, que acontecem todos os dias. O currículo é dividido em matérias regulares, como história, geografia e matemática. O estudo é complementado com visitas a museus, aulas de mergulho, viagens e encontros com estudiosos e personalidades locais. Todas as aulas são ministradas em inglês, por isso, a fluência no idioma é fundamental.
Para embarcar nessa, paga-se muito – o custo anual é de cerca de 125 000 dólares, ou 200 000 reais pelo câmbio atual. "Mas a experiência vale a pena", garante Joann. Não há porque duvidar, afirmam os especialistas. A possibilidade de ver de perto o que se está estudando enriquece a experiência do aprendizado e torna a escola mais atraente. Pedro Noguera, especialista em educação da New York University, resume a proposta: "A iniciativa é extraordinária. É um projeto novo e único, ainda levaremos tempo para avaliar seus desdobramentos. Mas, sem dúvida, é apaixonante".
Apaixonante e promissor. Durante o curso, os estudantes aprendem mandarim, a língua da segunda maior economia do planeta. Com as aulas de espanhol, esses jovens encerram o ensino médio com conhecimentos avançados nos três idioma mais populares do mundo. Aos 17 anos, estarão prontos para transitar na economia do futuro. “Mais do que isso, eles serão capazes de se mover em um mundo globalizado, de provocar transformações”, aposta Brad Ovenell-Carter, diretor da escola. Ovenell-Carter e outros cinco professores acompanham a aventura dos estudantes.
Para embarcar nessa, paga-se muito – o custo anual é de cerca de 125 000 dólares, ou 200 000 reais pelo câmbio atual. "Mas a experiência vale a pena", garante Joann. Não há porque duvidar, afirmam os especialistas. A possibilidade de ver de perto o que se está estudando enriquece a experiência do aprendizado e torna a escola mais atraente. Pedro Noguera, especialista em educação da New York University, resume a proposta: "A iniciativa é extraordinária. É um projeto novo e único, ainda levaremos tempo para avaliar seus desdobramentos. Mas, sem dúvida, é apaixonante".
Apaixonante e promissor. Durante o curso, os estudantes aprendem mandarim, a língua da segunda maior economia do planeta. Com as aulas de espanhol, esses jovens encerram o ensino médio com conhecimentos avançados nos três idioma mais populares do mundo. Aos 17 anos, estarão prontos para transitar na economia do futuro. “Mais do que isso, eles serão capazes de se mover em um mundo globalizado, de provocar transformações”, aposta Brad Ovenell-Carter, diretor da escola. Ovenell-Carter e outros cinco professores acompanham a aventura dos estudantes.
Seleção Rigorosa – Fazer parte da turma itinerante da Think Global School não é tarefa fácil. O processo de seleção é semelhante ao das melhores universidades do mundo. Para garantir uma vaga é preciso mostrar maturidade, independência, desenvoltura e empenho acadêmico. Afinal, não se trata apenas de viajar. Acima de tudo, o candidato deve demonstrar consciência da importância das experiências globais e precisa estar pronto para elas. Para montar a primeira turma, foram avaliadas mais 350 candidaturas - nenhuma de estudantes brasileiros.
Compor um grupo diversificado é uma das preocupações dos selecionadores. Nessa experiência globalizada, é fundamental que os alunos aprendam também uns com os outros é fundamental. Por isso, a primeira turma conta com adolescentes de países tão diferentes quanto Suécia e Gana. A segunda turma, que começa o ano letivo em setembro deste ano, ainda está em formação e Joann avisa: “Estamos à procura de um latino-americano. Quem sabe um brasileiro?”.
Assim que é aceito, cada estudante recebe um MacBook, um iPhone e um iPad. A tecnologia é uma aliada dessa nova proposta pedagógica. "Esses aparatos são as ferramentas do século XXI e dominá-las significa também entender melhor o mundo”, afirma Ovenell-Carter. "Além disso, é ali que armazenamos nossa biblioteca e a transportamos para todos os lugares." A tecnologia também é ferramenta essencial na hora de compartilhar as experiências. Os alunos mantêm um blog onde postam textos sobre as aventuras, exibem vídeos e publicam fotos.
Para os estudantes é um desafio viver uma experiência tão intensa ainda muito jovens. Ao fim das duas primeiras etapas, Alexander McPike está de malas prontas para Pequim, onde chega na próxima semana para o terceiro e último trimestre da nona série. "A opção que fizemos é desafiadora. Mas em que outra escola eu conseguiria aprender escalando montanhas ou mergulhando?”, questiona. Se ele vê algum aspecto negativo nessa experiência? “O lado ruim é que não podemos nos envolver muito com os esportes de equipe, nem participar de campeonatos, mas acho que é só isso.”
Compor um grupo diversificado é uma das preocupações dos selecionadores. Nessa experiência globalizada, é fundamental que os alunos aprendam também uns com os outros é fundamental. Por isso, a primeira turma conta com adolescentes de países tão diferentes quanto Suécia e Gana. A segunda turma, que começa o ano letivo em setembro deste ano, ainda está em formação e Joann avisa: “Estamos à procura de um latino-americano. Quem sabe um brasileiro?”.
Assim que é aceito, cada estudante recebe um MacBook, um iPhone e um iPad. A tecnologia é uma aliada dessa nova proposta pedagógica. "Esses aparatos são as ferramentas do século XXI e dominá-las significa também entender melhor o mundo”, afirma Ovenell-Carter. "Além disso, é ali que armazenamos nossa biblioteca e a transportamos para todos os lugares." A tecnologia também é ferramenta essencial na hora de compartilhar as experiências. Os alunos mantêm um blog onde postam textos sobre as aventuras, exibem vídeos e publicam fotos.
Para os estudantes é um desafio viver uma experiência tão intensa ainda muito jovens. Ao fim das duas primeiras etapas, Alexander McPike está de malas prontas para Pequim, onde chega na próxima semana para o terceiro e último trimestre da nona série. "A opção que fizemos é desafiadora. Mas em que outra escola eu conseguiria aprender escalando montanhas ou mergulhando?”, questiona. Se ele vê algum aspecto negativo nessa experiência? “O lado ruim é que não podemos nos envolver muito com os esportes de equipe, nem participar de campeonatos, mas acho que é só isso.”
_______________
PREMIAR OU REPROVAR - OS PROFESSORES?
Entrevista: Andreas Schleicher
Tarefa de governo: premiar – ou reprovar – os professores
O diretor para educação da OCDE diz que melhoria do ensino exige preparar e recompensar os bons docentes. E tirar da sala de aula os maus profissionais
Nathalia Goulart
Schleicher: avaliação periódica dos docentes é útil aos próprios professores (Pauilo Giandalia)
"Nos sistemas mais avançados de ensino do mundo, a carreira é preenchida por profissionais de alto nível. Isso, e não os altos salários, é o que torna a profissão atraente"
Às voltas com o mau desempenho de estudantes brasileiros, do ensino fundamental ao superior, o Ministério da Educação promete criar em breve um exame nacional para avaliar candidatos a professores. É o reconhecimento daquilo que diversos estudos empíricos vêm demonstrando: fazer a educação funcionar passa pelo aprimoramento dos docentes. O desafio não é exclusivo do Brasil. O jornal americano Los Angeles Times comprou uma briga com docentes locais, que pediram boicote à publicação, ao exibir um ranking em que o (mau) desempenho dos estudantes era atrelado ao de seus mestres. Situações como essas chamaram a atenção da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade formada por nações desenvolvidas, que acaba de realizar em Nova York o Primeiro Encontro Internacional sobre Professores, reunindo educadores, governos e ONGs. Para o físico alemão Andreas Schleicher, diretor para educação da OCDE e um dos coordenadores do encontro, governos de todo o mundo têm uma tarefa a cumprir: ensinar melhor seus professores, mantê-los motivados, premiar os bons profissionais - e reprovar os mal avaliados. "A meritocracia é um princípio muito importante. Manter a eficiência de um corpo docente implica não apenas dar aos professores oportunidade, apoio e incentivo para que continuem a fazer bem seu trabalho, mas também tirar da sala de aula aqueles que não são eficazes", diz. Na entrevista a seguir, Schleicher explica o atual desafio da carreira docente e conta como nações como Japão, Finlândia e Singapura vêm conseguindo bons resultados na área. "Nos sistemas mais avançados de ensino do mundo, a carreira é preenchida por professores de alto nível. Isso, e não os altos salários, é o que torna a profissão atraente."
Por que realizar um evento para repensar exclusivamente o papel dos professores?Mais do que nunca, o progresso social depende da qualidade dos sistemas de educação. Porém, a qualidade do sistema de educação jamais excede a qualidade de seus professores - que depende de seleção, formação continuada, plano de carreira e avaliações constantes.
De acordo com especialistas, aprimorar a formação do professor é um dos grandes desafios brasileiros na área da educação – e também uma questão fundamental para o desenvolvimento do país. Outra nações enfrentam o mesmo problema. É possível dizer que essa é uma questão universal no século XXI? Sim, absolutamente. E a razão é simples: em qualquer país, sempre existiram bons professores. A diferença é que no passado apenas uma parte da população precisava ser educada para liderar o desenvolvimento do país. Mas o custo social e econômico dessa filosofia tornou-se alto demais. Atualmente, os sistemas de educação precisam qualificar todos os seus professores, e não só alguns, se quiserem que todos os seus cidadãos tenham um ensino de qualidade. Além disso, no passado era possível supor que o que se aprendia na escola valeria para a vida inteira. Agora, temos o Google e a digitalização das habilidades cognitivas, com mudanças rápidas no mercado de trabalho: os sistemas de educação precisam proporcionar formas complexas de pensar e trabalhar para que as pessoas não sejam substituídas facilmente pelo computador.
Essa tarefa exige professores de qualidade. Como atrair os maiores talentos? Nos sistemas mais avançados de ensino do mundo, a carreira é preenchida por profissionais de alto nível. Isso, e não os altos salários, é o que torna a profissão atraente em países tão diferentes como Finlândia, Japão ou Singapura. Os candidatos a uma vaga de professor não se sentem atraídos por escolas organizadas como linhas de montagem. Eles desejam se deparar com uma organização de alta performance, com status, autonomia profissional e educação de alta qualidade atrelada ao profissionalismo, com sistemas eficazes de avaliação profissional e com carreiras diferenciadas. Portanto, essas são as questões que os países precisam resolver.
Quais os desafios dos governos? O primeiro é atrair candidatos qualificados e depois oferecer-lhes formação de boa qualidade. É difícil atrair bons candidatos se eles percebem que as instituições de ensino superior que formam professores não têm status na sociedade. Não é de espantar o fato de que os países que conseguiram elevar o nível de seu corpo docente são os mesmos que tornaram mais rígidos os critérios de admissão em seus programas de formação de professores. Igualmente importante é definir o que é um bom professor. Em muitos países, padrões assim guiam a formação inicial dos profissionais, a certificação, as avaliações de desempenho, o desenvolvimento profissional e o avanço na carreira. Em muitos sistemas de alta performance, a educação do professor não consiste apenas em fornecer o treinamento básico em temas relevantes e pedagogia, mas também desenvolver competências para a prática reflexiva.
O Brasil aplicará pela primeira vez uma avaliação nacional para seleção de professores da rede pública. É uma medida positiva? A avaliação do professor pode contribuir para a melhoria das práticas docentes, identificando pontos fortes e fracos. Também ajuda a atribuir aos professores a correta responsabilidade pelo nível do aprendizado de seus alunos. É um tipo de prestação de contas. Em geral, os professores veem avaliação e feedback de forma positiva. Em uma pesquisa realizada pela OCDE, 80% dos professores disseram que a avaliação é útil para o desenvolvimento profissional, e quase metade relatou que os resultados os levaram a aprimorar o conhecimento.
Há algumas iniciativas no Brasil de promover o professor por seu mérito. Porém, essa ainda é uma questão controversa entre os profissionais. A meritocracia é um princípio muito importante. Manter a eficiência de um corpo docente implica não apenas dar aos professores oportunidade, apoio e incentivo para que continuem a fazer bem seu trabalho, mas também tirar da sala de aula aqueles que não são eficazes.
A questão salarial é muitas vezes apontada como obstáculo ao avanço da qualidade. Como o senhor enxerga essa questão? Em alguns países, como Japão e Singapura, o governo acompanha de perto as variações de mercado para se certificar de que os salários dos professores são competitivos. Mas, na maioria dos países, os vencimentos são inferiores aos de outros profissionais graduados. No entanto, há muitos países onde o ensino ainda é atraente porque oferece aos professores um ambiente de trabalho fascinante e o salário se torna apenas o pano de fundo da questão. Igualmente, é importante oferecer um plano de carreira aos docentes. Se você disser a um jovem professor de matemática de 25 anos de uma escola primária que, daqui a 25 anos, ele continuará sendo a mesma coisa, ele não verá perspectivas em seu futuro. Os países bem sucedidos em educação promovem um ambiente que oferece novos horizontes ao professor, com crescimento profissional.
Que habilidades os professores devem ter para enfrentar os novos desafios da educação? Eles precisam equipar os alunos com as competências necessárias à formação de cidadãos ativos. Precisam personalizar as experiências de aprendizado para assegurar que todo estudante tenha a chance de ter sucesso e lidar com a crescente diversidade da sala de aula e as diferenças no estilo de aprendizado. Eles também precisam lidar com as inovações no currículo, na pedagogia e no desenvolvimento das ferramentas digitais.
A tecnologia é um desafio aos professores? Bons professores usarão bem as tecnologias – e, ao falar de tecnologia, me refiro tanto a recursos digitais quanto ao repertório adequado de estratégias pedagógicas.
Leia também:
___________________
domingo, março 27, 2011
MORRE UM PROFESSOR...
Caro amigo, Prof. Ivon:
Agradeço pela linda mensagem e, por ser assim, quero compartilhá-la com todos! Vale a pena ler (e se indignar!).
Um grande abraço!
Agradeço pela linda mensagem e, por ser assim, quero compartilhá-la com todos! Vale a pena ler (e se indignar!).
Um grande abraço!
NA SUA OPINIÃO, O QUE É UM BOM PROFESSOR?
Veja as respostas de entidades nacionais e internacionais para a pergunta
João Bittar/MEC
Carolina Vilaverde
Simone Harnik
Da Redação do Todos Pela Educação
Simone Harnik
Da Redação do Todos Pela Educação
Na sua opinião, o que é um bom professor? É aquele que tem a capacidade de ensinar os assuntos fáceis e difíceis e de aprender com os estudantes? É o que está empenhado em lecionar cada dia melhor? Com essa pergunta, o Todos Pela Educação contatou dez entidades nacionais e internacionais.
Veja as respostas das entidades abaixo:
Campanha Nacional pelo Direito à Educação
Daniel Cara, coordenador-geral
Daniel Cara, coordenador-geral
Um bom professor é um bom profissional. Educação não é (nem pode ser!) diferente de qualquer outra área. Um bom profissional precisa ser dedicado, deve se fazer presente, tem que ser compromissado, tem que ter interesse contínuo por aprimoramento e deve demonstrar força de vontade, interesse e iniciativa em buscar soluções aos problemas que surgem no seu cotidiano de trabalho.
O problema é que o professor é um profissional que recebe muito pouco, enfrenta péssimas condições de trabalho, não possui plano de carreira e é excessivamente cobrado. Defendemos, essencialmente, um tratamento justo, objetivo e isonômico.
Confederação Nacional de Pais de Alunos (Confenapa)
Iedyr Gelape Bambirra, presidente
Iedyr Gelape Bambirra, presidente
Um bom professor tem de gostar de criança, tem de gostar do estudante. Essa é a primeira coisa. Em segundo lugar, tem de ter uma boa formação: não apenas a profissional completa, mas também uma boa formação de conhecimento de leis e de princípios éticos e morais.
Se o professor tem esses princípios, vai aplicá-los durante sua vida profissional. O que ocorre, é que, muitas vezes, não há aplicação dos princípios éticos nas escolas públicas e privadas. E há professores que não se expressam de maneira adequada com os estudantes, colocam apelidos e até ofendem os alunos.
O professor tem de ser um agente de democratização da escola. Ainda falta acesso dos pais à escola e as famílias são impedidas de criar associações.
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE)
Heleno Araújo, secretário de Assuntos Educacionais
Heleno Araújo, secretário de Assuntos Educacionais
O bom professor é aquele que contribui coletivamente para que a escola cumpra seu papel. Para isso, tem de ter infraestrutura e ambiente adequados para a atividade docente e para que o estudante possa buscar autonomia. A escola tem de ser equipada, ter biblioteca, quadra de esporte coberta, laboratórios, espaço para o encontro com os colegas na hora do intervalo.
Além disso, o profissional tem de ter tempo para se dedicar à comunidade escolar e, portanto, ter exclusividade com uma escola. Dentro de sua carga horária de trabalho, o professor deve ter o tempo da sala de aula, de pesquisa, de estudo, de atendimento individualizado, e deve contribuir para o fortalecimento do conselho escolar, em projetos que envolvam a comunidade.
Para que trabalhe em uma única escola, é preciso salário decente. Também é necessária uma política de formação continuada, para que esteja preparado para enfrentar os desafios.
Um professor, em um ambiente desse tipo, está preparado para trabalhar com o coletivo e alcançar o objetivo da escola, que é preparar o estudante para a vida. Já um estudante preparado para a vida é aquele que se relaciona com outros cidadãos, cuida do ambiente, se preocupa com a escola e com o bem comum. Ele também sabe que a solidariedade é mais importante que a competição e que pode contribuir para que a vida seja melhor.
Conselho Nacional de Educação (CNE)
Francisco Aparecido Cordão, presidente da Câmara de Educação Básica
Francisco Aparecido Cordão, presidente da Câmara de Educação Básica
O bom professor é um profissional da Educação que, nos termos da atual LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), “zela pela aprendizagem dos alunos”. Ele sabe que sua missão profissional não se resume a dar aulas. Seu maior desafio está na promoção da autonomia intelectual dos alunos, que garante a prontidão para a aprendizagem permanente.
O bom professor, como já me confidenciou um garotinho de seis anos de idade, é aquele que “presta atenção na criança”. O grande educador Paulo Freire diria que ele aprendeu que a relação entre professor e aluno é sempre a relação de duas consciências que se respeitam. Ele tem certeza de que seus alunos estão aprendendo com seu trabalho, porque ele também está aprendendo nessa relação. Professores e alunos, em comunhão, estão aprendendo a ver o mundo com perspicácia e a nele atuar.
O bom professor tem paixão por ensinar, porque aprendeu que só poderá ser eterno naquilo que comunica e partilha solidariamente. Tem orgulho de sua profissão, defende-a com garra e a valoriza pelo seu trabalho bem feito e pela beleza dos seus resultados. Fica feliz quando os seus alunos conseguem ver, sentir, julgar e agir como cidadãos livres, solidários e eticamente responsáveis, justos e verdadeiros. O bom professor é um otimista, um sonhador, um poeta e um artista apaixonado pela sua profissão.
Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed)
Gostaríamos de sugerir mudar a pergunta para: Como é um bom professor? E com ela, respondemos: um bom professor é orientador do seu aluno, promove a compreensão do "porquê" e "para quê" do seu esforço em aprender, conduz responsavelmente o processo de permanente autoformação, valoriza a reflexão e a capacidade de análise crítica de cada um.
Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)
Maria de Salete Silva, coordenadora do Programa de Educação do Unicef no Brasil
Maria de Salete Silva, coordenadora do Programa de Educação do Unicef no Brasil
Uma boa professora ou um bom professor tem como diretriz de sua prática a compreensão de cada menino e menina como sujeito de direitos. Entende sua prática como essencial para garantir o direito de aprender e sabe que cada criança e adolescente tem tempos e formas diversas de aprendizagem.
Por isso, a boa professora e o bom professor têm um olhar diferenciado para cada uma das crianças. Preocupam-se com o desenvolvimento pleno de seus alunos e alunas: sua presença e ausência, sua saúde, exposição a situações de preconceito, discriminação e violência.
A atitude é de busca contínua de crescimento: os bons professores preocupam-se com a própria formação, buscando novas oportunidades de aprendizagem e contribuindo para o estabelecimento de uma rede de troca de experiências com os demais professores e professoras da escola e da rede de ensino. Tem disposição, calma e paciência para conversar e ouvir as crianças e suas famílias, estabelecendo com elas uma relação de atenção, proximidade e confiança."
Ministério da Educação (MEC)
Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva, secretária de Educação Básica
Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva, secretária de Educação Básica
Um bom professor deve gostar de fato da profissão: gostar de barulho, de gente curiosa, de choro de adolescente, de administrar conflitos. Tudo isto vem junto com o ofício de professor. Também deve gostar de estudar, de ler de tudo: jornais, revistas, gibis, literatura, teoria.
Deve ser pontual, porque deixar 30 ou 40 crianças ou adolescentes esperando não dá! Deve ser motivado com a dificuldade do seu aluno e fazer desta dificuldade, a sua motivação profissional: descobrir porque ele não aprendeu e o que pode fazer para que ele aprenda (e não vale reprovar...).
O bom professor tem de aprender a trabalhar coletivamente, pois o trabalho na Educação Básica é sempre em grupo. Precisa ouvir seus colegas, as críticas inclusive, sem levar para o lado pessoal. Deve gostar dos alunos, elogiar os trabalhos, conhecer a história de vida de cada um deles.
E para que ele seja um ótimo professor, precisa de condições para exercer a docência: dedicação exclusiva a uma escola, tempo para estudar, tempo para se reunir com seus colegas (sem que seja no tempo dos alunos), salário compatível com a sua formação.
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)
Wagner Santana, oficial de projetos do setor de Educação da Unesco no Brasil
Wagner Santana, oficial de projetos do setor de Educação da Unesco no Brasil
Para ser professor é necessário muito mais do que vocação, uma condição importante e necessária, mas não suficiente. É importante que os professores desenvolvam competências racionais e técnicas específicas de seu ofício, que se referem à responsabilidade com o seu trabalho e ao compromisso com a aprendizagem dos estudantes.
Há duas grandes dimensões que estão na base da identidade profissional docente, conforme mencionado na publicação “Educação de qualidade para todos: um assunto de direitos humanos", uma das referências da Unesco sobre professores. A primeira delas diz respeito a um conjunto de atividades relativas a “aprender a ensinar” e “ensinar a aprender”. É um aprendizado que requer “competências cognitivas - conhecer, manipular informação e continuar aprendendo acerca do que é próprio da disciplina - e competências pedagógicas - saber como ensinar a disciplina, como trabalhar em ambientes diversos, como gerar condições adequadas para a aprendizagem em contextos de dificuldade e com grupos heterogêneos e utilizar criativamente os recursos didáticos disponíveis”.
A segunda dimensão refere-se ao cumprimento responsável da missão atribuída pela sociedade aos docentes: “garantir o desenvolvimento integral dos alunos por meio de aprendizagens relevantes e pertinentes para todos”. Essa dimensão pressupõe competências éticas que “habilitem o docente a cumprir com o compromisso social de garantir o desenvolvimento integral dos alunos por meio de aprendizagens relevantes e pertinentes para todos”, e competências sociais, que são aquelas que criam as condições para “satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem; adaptar-se e responder à permanente mudança do conhecimento; trabalhar em redes; promover diálogos e consensos; em suma, exercer sua responsabilidade e direito de cidadão nas decisões relacionadas com a educação, a escola e sua própria prática”.
Além disso, é preciso destacar que, para exercer bem a profissão, o professor deve ter boas condições de trabalho, salário digno e oportunidades de aprimoramento profissional.
Todos Pela Educação
Priscila Cruz, diretora-executiva
Priscila Cruz, diretora-executiva
Um bom professor é aquele que não deixa nenhum aluno para trás. Os países que têm os melhores desempenhos nas avaliações internacionais são aqueles que têm baixíssima desigualdade educacional. Isso significa que não apenas a média é boa, mas a distribuição em torno dela é pequena, ou seja, não há muita diferença entre os alunos com menor e maior desempenho. Essa dimensão é muito importante, pois cada um dos alunos tem direito de aprender. E, assim, o bom professor é aquele que não desiste de nenhum aluno por maiores que sejam suas dificuldades.
Um bom professor é aquele que sabe o conteúdo a ser ensinado e a maneira de ensiná-lo. Ter domínio do conteúdo e saber gerenciar a sala de aula, ensinar e motivar os alunos são características presentes nos bons docentes.
O compromisso com o trabalho e com os estudantes também é fundamental. O bom professor não falta desnecessariamente, respeita os alunos, é parceiro das famílias. E, principalmente, é altamente comprometido com a aprendizagem de seus alunos, motivando-os a aprender cada vez mais.
União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime)
Um bom professor é aquela pessoa que detém (in)formação adequada e que desenvolve técnicas coerentes às múltiplas situações de ensino. Formação, informação e didática são premissas que compõem o perfil de um bom professor.
Contudo, não são suficientes. É necessário, ainda, o desenvolvimento da capacidade de olhar e de agir. Saramago nos ensina: "Se puderes olhar, vê; se puderes ver, repara". Compreendemos, então, que bons professores desenvolvem cotidianamente o (re)conhecimento "do outro" com suas alegrias e dores; e são capazes de criar a pergunta que afeta e mobiliza.
Em um mundo cada vez mais desigual o sentido de se colocar no lugar do outro, e, consequentemente, de agir, é fundamental. Dessa forma, podemos dizer que bons professores são aqueles que fazem opções políticas claras em prol de um mundo melhor, justo e solidário. Os bons professores olham, veem, reparam e agem.
União Nacional dos Estudantes (UNE)
Um bom professor é, acima de tudo, um professor que gosta de ensinar. É um professor que se dedica a provocar a curiosidade e a crítica em seus estudantes e que percebe a importância de seu trabalho no contexto da sociedade e do país em que ele vive. Que percebe que não é dono da razão e que seu aprendiz não é um aluno, ou seja, um "sem luz", como se fosse uma caixa vazia na qual devem ser depositados os conhecimentos.
Deve perceber, não só sua prática docente, mas a vida de seus estudantes à luz das contradições sociais e econômicas que condicionam seu desenvolvimento como cidadãos. É aquele que reflete sobre sua didática e sua proposta pedagógica e sobre os efeitos que elas têm sobre o aprendizado dos estudantes e sobre o debate de concepções e políticas educacionais implementadas atualmente.
E, sobretudo, é o professor que tem boas condições de trabalho, que devem ser proporcionadas, por sua vez, pelo poder público, por meio de salários dignos, planos de carreira, formação continuada e gestão democrática, responsabilizando-se, assim, não só o professor como sujeito, mas toda a sociedade pela formação de bons professores.
É, portanto, o professor que tem consciência da importância fundamental de seu trabalho para o desenvolvimento das vidas de seus estudantes e de um país cujo povo seja mais educado, crítico e consciente de suas possibilidades e direitos.
____________
Assinar:
Postagens (Atom)
